quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Sina

Acordo exasperado sob o furor do teu olhar, claro, límpido e infinito.
Não que precisasse.
Os travesseiros têm teu cheiro.
E o quarto, em tua ausência, encontra-se diminuído.
Ora, cada quadro perde um pouco do brilho depois que passas.
Vê: é tua sina, não podes estar em todos os lugares, tens que iluminar um canto por vez.

Um.
Canto.
Por.
Vez.

Maldição pra ti ou para todos os outros que gozaram de tua presença?
Não sei.
Mas gosto de lembrar enquanto você, me decifrando, alisava os cabelos.
Fácil.
Como num conto infantil.
Óbvio demais.
Uma planta carnívora que calmamente escuta o discorrer de sua próxima refeição.

Refeição?

Não consegues.
Há substância na matéria que tentaste engolir.
Mal sabias, mas as palavras te nutriram a alma.
Estás cheia, o físico já não importa.
Queres a saciedade das frases, do encanto, da leveza e da divagação.

E agora, somos, eu e tu, condenados a suportar a ausência um do outro.


sexta-feira, 10 de abril de 2015

Cayman

Claro e tenro é o sorriso materno.
O brilho em cada criação, a vistosa aparência do que é belo me mostram que a Terra, gire o quanto puder, não impedirá a alvorada.
O resplandecer virá no gesto amigo, no abraço fraterno ou no beijo do amante.

Em toda expressão um recado: o subentendido é, de certo, a linguagem conhecida e negligenciada por todos.
Nunca esperei que fosse tão claro.

O amor habita todas as coisas

Abra os olhos
Veja.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Mandamento

Pensa e sabe; 
age e logo vê.
Manda a mente: Mandamento.
Desobedecer é, de certo, o próximo passo;
Natureza humana e humano sou.
Que Deus me perdoe.

sábado, 18 de outubro de 2014

Duas

Duas da manhã.
Mais uma vez.
Duas da manhã.

Ela chegara e se juntara a mim. Novamente eu dividiria a minha cama.
Como não notá-la quando suas mãos cerravam-se sobre meu pescoço?
Abri os olhos para encará-la, nunca fugi realmente do seu olhar, e no profundo abismo de suas expressões encontrei o amor.
Com a força que me restava indaguei: ''O que acontece se acaricio as mãos que me roubam a vida?''
Não havia resposta. Nunca há resposta para o desarmar do amar, é sabido.
E ela sabia.

Duas da manhã.
Deus, quantas duas devo suportar?
Não existem mãos que me roubem a vida hoje, mas ela está comigo.
Deita-se e, como de costume, não pede permissão. Sua recorrência me é completamente misteriosa, e, de novo, cá está.

Com certeza a amo. Sua precisa visita faz perceber o motivo pelo qual tanto fugi: Não tenho como olvidar alguém por quem nutri carinho tão devoto.


Seus dedos tamborilam pela minha pele mais uma vez, a maciez dos seus movimentos não negam, sei para onde se encaminham.
Como não notá-la? Como fugir dos laços em que suas mãos precisas e suaves tornavam a fazer abaixo do meu rosto?
A resposta já me é antiga companheira.
Ela não me sufoca enquanto dou-lhe as mãos.


segunda-feira, 28 de abril de 2014

Trilhos

Embarco, de novo.
Maquinista desconhecido à frente,

Ladeado por caminho desconhecido e já passa outra estação;
Descem amores, sorrisos, lágrimas e momentos

Segue esperança
Aprendizado
Amor
e

...Dor
Doravante!
Propulsiona: já ponho-me à frente de onde estive e então
Embarco, de novo.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Penumbra

  Abriu os olhos, imóvel na escuridão em que se encontrava. Tentava ser um só com o silêncio, buscava conforto na ausência de tudo e todos. Gostava mais dos que já se foram, das coisas que não teve, dos que não gostava das mesmas coisas que ele.

  Em meio a escuridão percebeu que um vulto agora o encarava. Viu a edificação dos seus erros se erguer e o confrontar. Tudo em que falhara era o que realmente o havia moldado. Não se sentia fraco, sentia-se grato. Seus defeitos formaram sua personalidade, que não era a melhor ou pior, mas única. Abraçou os seus fracassos e momentos depois notou que eles passaram a se esvair. Acenou com o pesar de despedir-se de um grande companheiro e concluiu que dera um passo rumo ao lugar onde deveria chegar.

 Avistou um pequeno semblante encolhido, parecia soluçar e estremecer. Ao confrontá-lo descobriu seu nome: Vitória. Era uma criatura engraçada e de feições muito orgulhosas embora fosse  bastante pequena. Perguntou-lhe por que parecia triste e sentiu seu corpo estremecer com a resposta:

"Onde quer que eu exista sou procurada;
 De uns escapo, de outros sou tomada
 Eventualmente me alcançam e tão tenro é o momento
 Onde juntos cantamos e nos jogamos ao vento
 Risos e abraços proclamam em meu nome até que percebem...
 Que existem outras de mim e que rapidamente me sucedem,

 Que não sou única e suficiente
 Para segurar as ambições de tanta, tanta gente."

  Decidiu que a levaria sobre seus ombros, suportaria o peso e as consequências dela e de quantas do seu tipo encontrasse. Reparou que agora possuía os dois pés voltados para a mesma direção, seja lá o que lhe esperasse, era para lá que iria.



segunda-feira, 13 de agosto de 2012

À deriva

Abrira os olhos para tomar conhecimento das nuvens que se amontoavam sobre sua cabeça, as via, mas não queria enxergar que o inverno se instalara em sua vida e não lá fora.
A estranha fluidez com que o chão se movia sob seu corpo o fazia se sentir desconfortável, percebera enfim que não havia chão, e com a realização chegara o devaneio: não haviam estações, não se tratava de invernos e verões, estava à deriva, seu mundo se resumia em água, sal e medo.
Se perguntou o que faria se não havia o que enxergar, ou ao menos para onde ir.
Decidiu afogar-se em todos os cheiros e sensações que pudesse, fechou os olhos e afundou, embora sem sucesso, o sal amargara sua boca e fazia seus olhos arderem, impunham-lhe a condição e a eterna lembrança de como e onde estava, embora não soubesse como havia parado ali.
Passaram-se horas, dias, anos talvez, quem poderia dizer? Sentia-se mais leve enquanto a água acariciava suas costas, decidiu que mesmo sem saber para onde ir, se esforçaria, iria a algum lugar, mas onde quer que chegasse, sabia, carregaria consigo para sempre as lembranças e o sal do tempo em que apenas flutuava...