sábado, 18 de outubro de 2014

Duas

Duas da manhã.
Mais uma vez.
Duas da manhã.

Ela chegara e se juntara a mim. Novamente eu dividiria a minha cama.
Como não notá-la quando suas mãos cerravam-se sobre meu pescoço?
Abri os olhos para encará-la, nunca fugi realmente do seu olhar, e no profundo abismo de suas expressões encontrei o amor.
Com a força que me restava indaguei: ''O que acontece se acaricio as mãos que me roubam a vida?''
Não havia resposta. Nunca há resposta para o desarmar do amar, é sabido.
E ela sabia.

Duas da manhã.
Deus, quantas duas devo suportar?
Não existem mãos que me roubem a vida hoje, mas ela está comigo.
Deita-se e, como de costume, não pede permissão. Sua recorrência me é completamente misteriosa, e, de novo, cá está.

Com certeza a amo. Sua precisa visita faz perceber o motivo pelo qual tanto fugi: Não tenho como olvidar alguém por quem nutri carinho tão devoto.


Seus dedos tamborilam pela minha pele mais uma vez, a maciez dos seus movimentos não negam, sei para onde se encaminham.
Como não notá-la? Como fugir dos laços em que suas mãos precisas e suaves tornavam a fazer abaixo do meu rosto?
A resposta já me é antiga companheira.
Ela não me sufoca enquanto dou-lhe as mãos.


segunda-feira, 28 de abril de 2014

Trilhos

Embarco, de novo.
Maquinista desconhecido à frente,

Ladeado por caminho desconhecido e já passa outra estação;
Descem amores, sorrisos, lágrimas e momentos

Segue esperança
Aprendizado
Amor
e

...Dor
Doravante!
Propulsiona: já ponho-me à frente de onde estive e então
Embarco, de novo.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Penumbra

  Abriu os olhos, imóvel na escuridão em que se encontrava. Tentava ser um só com o silêncio, buscava conforto na ausência de tudo e todos. Gostava mais dos que já se foram, das coisas que não teve, dos que não gostava das mesmas coisas que ele.

  Em meio a escuridão percebeu que um vulto agora o encarava. Viu a edificação dos seus erros se erguer e o confrontar. Tudo em que falhara era o que realmente o havia moldado. Não se sentia fraco, sentia-se grato. Seus defeitos formaram sua personalidade, que não era a melhor ou pior, mas única. Abraçou os seus fracassos e momentos depois notou que eles passaram a se esvair. Acenou com o pesar de despedir-se de um grande companheiro e concluiu que dera um passo rumo ao lugar onde deveria chegar.

 Avistou um pequeno semblante encolhido, parecia soluçar e estremecer. Ao confrontá-lo descobriu seu nome: Vitória. Era uma criatura engraçada e de feições muito orgulhosas embora fosse  bastante pequena. Perguntou-lhe por que parecia triste e sentiu seu corpo estremecer com a resposta:

"Onde quer que eu exista sou procurada;
 De uns escapo, de outros sou tomada
 Eventualmente me alcançam e tão tenro é o momento
 Onde juntos cantamos e nos jogamos ao vento
 Risos e abraços proclamam em meu nome até que percebem...
 Que existem outras de mim e que rapidamente me sucedem,

 Que não sou única e suficiente
 Para segurar as ambições de tanta, tanta gente."

  Decidiu que a levaria sobre seus ombros, suportaria o peso e as consequências dela e de quantas do seu tipo encontrasse. Reparou que agora possuía os dois pés voltados para a mesma direção, seja lá o que lhe esperasse, era para lá que iria.



segunda-feira, 13 de agosto de 2012

À deriva

Abrira os olhos para tomar conhecimento das nuvens que se amontoavam sobre sua cabeça, as via, mas não queria enxergar que o inverno se instalara em sua vida e não lá fora.
A estranha fluidez com que o chão se movia sob seu corpo o fazia se sentir desconfortável, percebera enfim que não havia chão, e com a realização chegara o devaneio: não haviam estações, não se tratava de invernos e verões, estava à deriva, seu mundo se resumia em água, sal e medo.
Se perguntou o que faria se não havia o que enxergar, ou ao menos para onde ir.
Decidiu afogar-se em todos os cheiros e sensações que pudesse, fechou os olhos e afundou, embora sem sucesso, o sal amargara sua boca e fazia seus olhos arderem, impunham-lhe a condição e a eterna lembrança de como e onde estava, embora não soubesse como havia parado ali.
Passaram-se horas, dias, anos talvez, quem poderia dizer? Sentia-se mais leve enquanto a água acariciava suas costas, decidiu que mesmo sem saber para onde ir, se esforçaria, iria a algum lugar, mas onde quer que chegasse, sabia, carregaria consigo para sempre as lembranças e o sal do tempo em que apenas flutuava...

Motiva

Até que ponto ainda esperamos o vislumbre de algo que ainda não sabemos?

Perseveramos onde antes caímos e transformamos nossas fraquezas em fortalezas;

Tudo testamenta que podemos, ainda que sem querer, passar pelos desapegos e atropelos de uma vida que não cansa de desapegar e atropelar.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Encare


Feliz de olhos fechados, triste de olhos abertos, digo-lhes, pois:
Todo homem passa dois terços dos seus dias de olhos bem abertos, para, exaurido, fechá-los até que involuntariamente abra-os novamente.

2

Era apenas mais uma noite insólita em que sentia suas entranhas revirarem. O frio brincava como moleque travesso entre sua espinha e seu estômago, aumentando ainda mais o desconforto de existir.
Estava alheio a si mesmo, um espectador de uma vida qualquer, exceto que esta era sua. Sabia que deveria fazer alguma coisa, tomar as rédeas da sua vontade, mas seria trabalhoso demais. Os dias se arrastavam e ele os olhava enquanto morriam, percebeu que o vermelho do crepúsculo era nada mais que o jorro de sangue de uma estrela cuja morte e renascimento eram acontecimentos rotineiros.

"Como podem todos dormir sob uma estrela que morre, não se desesperam por estarem, a estrela e eles mesmos, fadados a um só caminho?"  Pensava.

Não havia novidade, o mundo em toda sua diversidade não lhe oferecia prazer algum. Sabia que no grande esquema das coisas era descartável, que todos eram.

Então ela apareceu...

Mostrou-lhe tudo que lhe era familiar, deixou ser ensinada, torceu o nariz, mesmo sabendo que o desconforto seria o próximo passo, chorou e sorriu ao seu lado, bem como revelou-lhe coisas que sabia que ele não imaginaria ouvir.
Riram, trocaram afagos e tragédias, eram curiosos em suas formas embora fossem perfeitamente simétricos. Ele não entendia bem o que acontecia, como e por que motivo ela estava ao seu lado, a dor da existência diminuía conforme os seus problemas iam se dissolvendo, percebeu, então, o grande esquema das coisas: Ocupação.

O sol, em sua infinita bondade, existia para aquecer até o dia em que morresse, bem como a lua acalenta aqueles que já se aqueceram demais.

Tomou um gole de água, sentou em sua escrivaninha e com a maestria de um artista as linhas se desnudaram sobre o papel, suas vísceras expressavam exatamente o que sentia: Ela, ele, seus versos, tudo era a sua  razão para existir.
Não fosse a insensatez em que vivia, sabia, não duraria um segundo a mais. Parou, pensou na expressividade de sua descoberta, no teor destruidor do que tinha acabado de realizar.

Deitou-se e, para sua surpresa, rapidamente dormiu e sonhou...